sábado, abril 05, 2008

Memorias Vivem

Meu signo é Câncer, eu prezo as lembranças como riqueza interior, como romance, como conquistas que jamais serão esquecidas. Valorizo-as como recheio a conversas futuras. Prezo os Museus e a Historia. Passado e futuro são sinônimos em minha cabeça. Ainda feliz, sou confuso com toda a ciência que tenta me explicar as chaves do antes, agora e depois. Do aqui, lá, mais adiante. A velocidade. O trem passando. Eu parado na estação vejo as pessoas andando dentro desse trem. Eu parado na estação. Feliz, mas confuso. Algumas coisas que vejo, ninguém mais vê. E fico ali, a descrever a situação e colocar em palavras a teoria do livro que eu queria escrever. E escrevo em minutos, só na minha cabeça, centenas de páginas desse livro imaginário. E o tempo passa e o mesmo tempo passou, deixando um sorriso incrível em meu rosto.

Quando eu tinha 3 anos de idade eu fugi de casa. Corri tropeçando nas pedras da linha do trem. Não sei onde eu estava indo, mas sei que caminhava e que avante eu seguia; e sabia, que alguém viria me buscar. Eu sorria de alegria e dizia que estava indo viajar. Sem fugir eu viajei.
E naquela mesma tarde, tenho isso gravado em minha memoria, sentávamos os dois na garagem de casa,  esse menino loiro, da minha idade me arranhava o rosto, as quais marcas tenho até hoje. E essa é a minha mais remota lembrança do sentimento de inveja, era isso que eu sentia de outro garoto, que diziam ser meu primeiro melhor amigo.

Não existe música que se relacione com as minhas primeiras lembranças, mas existem as musicas que me levam a infância. Existe um determinado tempo, nublado, quieto, a tarde e frio que ativa minha nostalgia a vida infantil. Minha testa batia nas mesas, tão pequeno eu era e meus sonhos futuros brotavam. Olhando o meu passado agora, vejo que eu já era o que esou hoje e consigo dividir e ligar meus desejos profissionais, sexuais e artísticos dos meus 5, 6, 7, 8, 9 anos com as coisas que completei na vida que tenho agora. Minha primeira namorada foi as 5 anos de idade, é logico que não fiz nada, mas sei que ela era minha primeira namorada, lembro de sua roupa na festa junina, lembro de sua casa e do quanto ficamos nós dois envergonhados quando meu pai foi a casa dela buscar uma TV que o pai dela havia concertado. Lembro de estar encostado numa máquina de costura e olhava para ela e não falávamos nada. Lembro do meu segundo melhor amigo e das tardes que passávamos em sua casa, correndo em volta da sala e cozinha. Era uma tarde e estava nublado. Lembro de pequenas promessas, nunca cumpridas.

Meus sonhos começaram a brotar logo já nessa época. Eram dias que me imaginava ser Super Man e que a Mulher Maravilha me acorrentava no sofá, enquanto minha mãe cuidava de seus afazeres na cozinha, essa mulher imaginaria me seduzia aos meus primeiro sonhos eróticos. Outros dias eu era Gene Simmons do Kiss e eu ia a escola todo vestido e maquiado, na minha imaginação, e todos me olhavam e me ovacionavam. Eram meus primeiros sonhos de ser uma estrela do Rock. Mas no fundo, no fundo eu queria ser Astronauta. Eu já escrevia em meus primeiros anos de escola, eu fazia poemas, uma ode ao Espaço e as Estrelas. Eu não mudei nada.

Eu tenho tanto a contar e dizer, parece que não me esqueci das coisas que me aconteceram. Das mais corriqueiras, como quando decidi não mais brincar de carrinho porque me achava já grande e dias depois me entregar as brincadeiras infantis de novo, chorando dizendo que não queria crescer e que ainda era criança; as mais fortes, como ouvir Darklands do Jesus and Mary Chain trinta mil vezes e chorar sozinho no quarto porque eu não queria ser mais um perdido no mundo e uma indecisão tomava conta de meu coração, eu sofria. Alguns amigos se assustam quando vibro por alguma memória que me é trazida de volta depois de algum comentário que fez ou algo que me disse diretamente. Eu amo que me lembrem de algo que eu tinha me esquecido.

Meus irmãos são todos bem mais velhos que eu, eles me botaram no mundo da música. Eles foram os responsáveis por quase toda a música que eu escuto hoje. Das músicas que são meus prazeres culposos as que tenho orgulho em dizer que gosto. Como são de bom gostos esses meus irmãos. Entre eles, as preferências eram diversas e com isso criou-se uma salada tropical e pra cima na minha própria discoteca; mas para honrar o equilibro e botar mais harmonia ao meu gosto, eu também gostei do oposto a essa alegria, eu trouxe de meu interior a musica que me fascina hoje em dia, que nada mais é do que a mesma musica que eu faço, ou tento fazer ou que vou ainda fazer.

Depois, pós-adolescência veio minha juventude e minha banda e tudo passou a girar em torno dela. Que somente essa parte, é uma longuíssima estoria que ei de te contar. Um dia.

Minhas memórias serão infinitas, meu dia vai chegar, quando eu poderei relatar os detalhes. Do mais obscuro ao mais apoteótico. Do que aconteceu ao que vai surgir. Do Escuro a Luz. Do Amor ao Ódio. Me emociono fácil com meus pensamentos, sozinho e quero explodir e ensinar o Amor aqueles que me rodeiam. O Amor que aprendi com minha família e que depois foi completado vivendo com meus amigos e meu grande amor eterno. Tento dizer que basta ser, que amar é simples e que o difícil é perceber. Ele está preso em sua memória e ligado em sua imaginação. Ele bate junto com o seu coração.

Mas sabe, não vou ficar aqui traduzindo a Bíblia, simplificando o conforto que é o colo de sua mãe ou a sensação de seu gozo. Um dia poderei me expressar de um modo que palavras não serão necessárias. Sem espelhos, sem competições, sem arrogância, sem nenhuma pretensão, um dia eu irei me encontrar e todas as minhas memorias irão se resumir em uma só lembrança: a lembrança da vida que tive e de todos que conheci. Um dia.